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sábado, 25 de abril de 2026

O vaqueiro Valdivino e os vaqueirinhos de minha memória!

 Por João Bosco de Araújo*

Jornalista ▶ boscoaraujo@assessorn.com

O tempo passa, mas a memória fica e podemos resgatar sejam nas conversas, nas visitas, e nesta era digital nas postagens compartilhadas de todos os perfis. Foi assim que visitei a Fazenda Timbaúba dos Gorgônio, com imagens do velho casarão que me rebobinaram ao tempo em que na infância a visitava presencialmente, porque a propriedade era vizinha a de meu pai, embora estivesse em território de Ouro Branco, no sertão potiguar.

O casarão foi construído pelo Capitão Gorgônio Paes de Bulhões, por volta de 1863, o patriarca da família, e era capitão mesmo, da então Guarda Nacional do Império brasileiro, a fazenda se destinava à criação de gado e dar apoio a negociação do boi para engorda, vindo do estado do Piauí.

Bem antes dessa época, o pai de Gorgônio e dono da Fazenda Umari, Cosme Pereira da Costa já fazia esse comboio de gado do Piauí, foi durante essas viagens que ele trouxe o vaqueiro Vicente Ferreira de Andrade que se tornou avô de minha avó Virgínia, mãe de meu pai Pedro Salviano de Araújo.

O vaqueiro Vicentinho era o braço direito do velho Cosme Pereira e sua descendência cresceu nas terras de Umbuzeiro onde se casou com Aninha da Pedreira, a fazenda dos Nóbrega, que era filha do irrequieto Cosme do Umari em uma de suas peripécias fora do casamento.

Dentre os vaqueiros herdeiros do famoso Vicentinho, o meu tio-avô João Ferreira, o “Tio Joca”, de velhas memórias de sua vida embrenhada no mato e passagens na história do Fogo da Pedreira, embate do bando do cangaceiro Antônio Silvino, no início do século passado.

Ainda no século XX, na década dos anos sessenta, a Fazenda Timbaúda era ministrada pela viúva de Zuza Gorgônio da Nóbrega, “Dona Nanu”, assim que era reconhecida e a vi em uma dessas visitas ao casarão ao lado de meu pai.

Nesse punhado de memória, vem a do vaqueiro Valdivino Chagas, esse neto de Vicentinho, e seu pai Francisco Chagas foi soldado voluntário do Império e lutou na Guerra do Paraguai. Nem tão habilidoso como o avô Vicentinho e o primo Joca, Valdivino foi vaqueiro da Timbaúba dos Gorgônio, cumprindo também sua sina de homem do mato.

O vaqueiro Valdivino morava no Umbuzeiro, casado, era pai de muitos filhos e já fora dos campos, aposentado da lida de gado, não esqueceu da velha Timbaúda de todos nós, e a visitava sempre, e nesse percurso passava na casa de meu pai para uma prosa, que nunca faltava o convite para sentar à mesa na hora da refeição.

Nunca esqueci, o velho vaqueiro mantinha no ombro seu bornal, mesmo na mesa carregava a tiracolo e numa ocasião o vi enchendo o bisaco de comida e falava: compadre Pedro - meus pais eram padrinhos de um de seus filhos -, estou levando para meus vaqueirinhos e minha vaqueira, porque necessitam e aqui tem muita fartura.

Meu pai não hesitava e pedia a minha mãe para complementar com mais alimentos, já que no bisaco ele despejava apenas pedaços de rapadura e carne.

As memórias da velha fazenda Timbaúba também nos pertencem, cujo casarão é tombado patrimônio histórico-arquitetônico desde 1987 e suas atividades foram desativadas há cerca de 20 anos.

Que as atitudes do velho vaqueiro Valdivino nos encorajem de manter a esperança de meu pai de um olhar para o próximo.

Imagem retirada do instagram/serido_arretado

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