Por João Bosco de Araújo
Jornalista ▶ boscoaraujo@assessorn.com
De uns anos prá, muito tenho visto o chapéu de couro em muitas cabeças, uns artistas, outros menos, outros mais que artistas, porém, tenho muito apreço ao chapéu de couro do Gonzagão, aliás, foi o rei do baião quem entronizou na mídia o nosso chapeu de couro desde o início de sua carreira nos anos quarenta do século 20, sem citar o período de Virgulino Lampião que foi bem antes.
Assim, a pesar das cabeças ilustres dos chapéus de couro, o produto é uma peça genuína do homem sertanejo e faz parte do seu trabalho debaixo do sol escaldante, em especial o vaqueiro, ferramenta imprescindível em sua labuta do gado embrenhado na caatinga.
Isso tudo explica o ciclo da economia do gado que envolve a vida da família para o sustento dos filhos, uma realidade neste contexto particular do seridoense, que me deixa propício resgatar a história de meus avós maternos, Severino e Luzia Tavares de Araújo, porque em Caicó foram eles os primeiros chapeleiros da cidade, fabricando e comercializando o produto, que em princípio começaram ainda jovens, solteiros, em terras paraibanas suas origens, em São Mamede, também sertão, e já casados migraram para o Rio Grande do Norte nos idos dos anos trinta do século findo já se aproximando, agora, do centenário.
Na atualidade, Caicó representa um profícuo comércio de chapéu e bonés no cenário da produção nacional, se destacando no Nordeste, o que meus avós não vivenciaram, embora foi essencial para educar os quatro filhos nos colégios onde apenas famílias com renda, digamos alta, estudavam, além de adquirir uma casa própria no centro da cidade.
Ainda adolescente, conversava com minha avó Luzia que me revelou: “aos dez anos já trabalhava costurando chapéu”, apontando seu olhar para o horizonte, remoendo o tempo passado! Sei também que o casal ao chegar da Paraíba e fincar morada no Rio Grande, criaram uma oficina de chapéus nos fundos da casa e posteriormente ampliaram ao lado da residência na Augusto Monteiro, no centro de Caicó, foi nesse prédio onde funcionou a sede do Centro Estudantil Caicoense - CEC, final dos anos 1960 e inicio anos setenta, época em que minha avó estava aposentada perto de uma década viúva, mas manteve o negócio com o cunhado Manoel Tavares, irmão de meu avô.
Negócio que ela empreendeu na oficina de fabricação, anos depois de chegar à cidade potiguar, terceirizando a costura do chápeu porque apenas ela possuía a máquina própria de “um braço” para esse serviço, tanto que foi preciso adquirir um motor, em Campina Grande, adaptando a velha máquina de costurar chapéu devido a grande procura de outros chapeleiros que surgiram na região do açudinho, em Caicó, cujos descendentes ainda continuam no mesmo ramo, alguns produzindo bonés, passados mais de oito décadas.
A carapuça não serve para o chapéu, a não ser que sirva para outros bonés, e o trabalho digno e honesto de meus avós serviram de espelho para uma geração de chapeleiros que resistem em manter a tradição do velho chapéu de couro, produto da criação de gado na caatinga de nosso sertão semi-árido brasileiro.
Imagem ilustrativa reproduzida da internet
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