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sábado, 14 de março de 2026

AAAI SIVERINO!

 Por João Bosco de Araújo

Jornalista  boscoaraujo@assessorn.com

Minha Avó Luzia e meu Avô Severino são de São Mamede, sertão da Paraíba, que fica bem perto de Caicó, também sertão, mas do Rio Grande, como eles diziam para abreviar o nome do nosso estado se bem que o Norte nem precisaria ter sido incluído porque a fundação do Rio Grande do Sul fora duzentos anos depois. Deixemos esse babado para os historiadores, vou me atrelar aos meus queridos avós, e isso também já há um tempinho, cerca de 80 aninhos.

Como é fato, Luzia e Severino foram os pioneiros na fabricação e comercialização de chapéus de couro em Caicó, desde 1932, cujo empreendimento dava sinais de êxito, portanto, começavam a se estabilizar, sendo mais fácil retornar às suas origens para rever amigos e familiares, aliás, além de trazer a mãe e os irmãos para Caicó, meu avó Severino fora responsável pela migração de outros parentes ao Rio Grande, alguns deles se instalaram na região, escolhendo Jucurutu, por conta da atividade, na época, de mineração.

Nas vezes que visitavam São Mamede, geralmente na festa da Padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, em dezembro, tudo se resumia em alegria, e não foi diferente neste ano, o casal acompanhado dos quatros filhos e o quinto na barriga de minha avó, prestes a nascer.

Meu avô prontamente fretou um carro para a viagem e minha avó se arrumou comprando objetos pessoais e roupa nova para a família, o caçula Tio Antenor, minha Mãe Alzira e meu Tio Chico, os adolescentes, e Tio Toinho o mais velho, rapazinho.

E seguem viagem rumo São Mamede, estrada de barro, ainda sem as chuvas, muita poeira e a vegetação cinzenta da caatinga, no entanto a sensação de felicidade corria naquele instante, mesmo o vento seco a bater pelas janelas do automóvel 

Restando poucos quilômetros para a chegada, repentinamente ouvem-se aquele grito: “AAAI SIVIRINO!!!”

O suficiente para o ágil motorista imediatamente brecar o veículo, vendo a passageira com um barrigão, a poeira cobrindo o carro e meu avô indagando: “O  QUE FOI, LUZIA!”

Para surpresa de uns e furzaca dos meninos, minha avó respondeu: “DEIXEI A CABELUDA!” Meu avó não se titubeou e ordenou: “TOCA A VIAGEM, MOTORISTA”.

Tratava-se de uma bolsa bem chique que minha avó comprara para se apresentar na festa, um lançamento da época revestida de pelos de animais, ou seja, a cabeluda ficou pra trás!

Quer saber mais, ao voltar da viagem devolveu a dita cabeluda ao vendedor e nunca mais ninguém se esqueceu do grito de minha avó ecoando nas entranhas de serrotes, pedregulhos, juremas, cactos e poeira do sertão paraibano.

Minha Avó Luzia teve antes dessa barriga outro bebê, Maria de Lourdes que faleceu aos dois anos de idade, e o do grito faleceu aos seis meses, após nascer e ser batizado de Lourival, mas não em consequência do susto, segundo meus tios e minha mãe, os dois sucumbiram por falta de assistência hospitalar. 

Imagem ilustrativa reproduzida da internet

Leia texto relacionado: Sertão chapéu de couro!

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