Por João Bosco de Araújo
Jornalista ▶ boscoaraujo@assessorn.com
Diferentemente do que acontecia no final dos anos sessenta, ainda criança, quando costumava passar o feriado da Semana Santa que eram os sete dias absolutos, no sítio do meu pai, em Caicó, com meus irmãos. No final da noite da Sexta-feira da Paixão, um grupo de pessoas, acompanhado de um sanfoneiro, saia com o Judas, feito de molambo e vestido de paletó, carregando-o nas costas, visitando as casas da redondeza, cujo objetivo, além da tradição da brincadeira, era de assustar aos desavisados, incluída nessa categoria as crianças. Que não era o meu caso.
Em algumas dessa casas, já fechadas com as pessoas dormindo, escolhia-se para dar uma parada e dançar. Nesse ínterim, aproveitando o descuido do dono, uma outra pessoa do grupo, sorrateiramente penetrava no galinheiro e furtava uma “penosa” para em outra ocasião cozinhar e comer a galinha, bebendo cachaça.
Um aspecto interessante, observado. O Judas também dançava, ou seja, a pessoa que o conduzia, geralmente um homem, saia com ele dançando na sala, no alpendre, quando a casa era maior, ou no próprio terreiro da casa. O que importava era a alegria da brincadeira.
Nessa pisada, a farra seguia até o dia amanhecer, momento em que se reuniam em torno do boneco, para enforcar e estraçalhar o Judas, despedaçando e rasgando, ao ponto de ficar apenas pedaços de tiras de panos.
Dias desses, da semana santa, em conversa com um dos organizadores de Judas dessa época sessentista, Manoel Cirino, hoje aposentado rural com 70 anos, morando em Caicó, me dizia por telefone da tristeza de ver as tradições se acabando. Cirino narrou-me fatos pitorescos, por ocasião do Judas da semana santa, ocorrido quarenta anos atrás. Ele lamenta dos jovens não se interessarem mais pelas tradições populares, e que as crianças de hoje não recebem essas informações dos adultos, crescendo vendo o que passa na televisão, por conseguinte, segundo observa, elas próprias são as principais vítimas desse processo, em muitos casos gerando violência e deseducando.
O aposentado Manoel Cirino nos seus setenta anos tem razão de reclamar, sem rancor nem saudosismo, apenas na condição de observador popular, de pessoa simples, porém com visão nos valores culturais de um povo, de uma região, de uma nação.
A brincadeira, uma tradição herdada dos portugueses, simboliza a morte de Judas Iscariotes, que traiu Jesus, e acontece no sábado de Aleluia, anterior à Páscoa, sempre começando a partir da meia-noite da sexta feira santa.
Imagem ilustrativa reproduzida da Internet
JBAnota – Oportuno esclarecer que este texto foi publicado há 17 anos, em abril de 2009, ainda no início da era digital, e que Manoel Cirino já não se encontra neste plano, partiu em 2022, perto dos 83 anos de idade.
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