Por Fernando Luiz*
Na semana passada eu escrevi aqui sobre inclusão cultural. Hoje eu vou propor aqui duas situações diferentes.
Na primeira situação vou falar sobre a música Não Se Vá, gravada pela dupla Jane e Herondy, um dos maiores sucessos do ano de 1977, que até hoje é uma das canções mais conhecidas do Brasil. Considerada pela elite preconceituosa como uma música cafona, durante muito tempo a canção jamais foi executada em emissoras FM, que naquela época iniciavam um processo de popularização. A música em questão era a versão do sucesso francês Tu Tan Vas, gravada pelo cantor Alan Barbiere. Ao contrário da versão gravada pela dupla brasileira, a gravação original era executada incessantemente por FM’s brasileiras, que tinham então um público elitizado. O curioso é que a gravação francesa e a versão brasileira eram idênticas: mesmo tom, mesma introdução, mesmo arranjo, mesma interpretação. Só uma coisa mudava: o idioma. E essa única diferença foi suficiente para alçar a gravação original à condição de “clássico internacional da música romântica” e colocar a versão em português na condição de “suprassumo do brega.”
Vamos à segunda situação. O ano era 1979. Uma pessoa de um bom nível intelectual ouve, por acaso, numa AM, uma canção do cantor Fernando Mendes, cujo refrão, apesar de desconhecido pelo suposto ouvinte de bom nível intelectual - e, por extensão um admirador de um tipo de música considerado por ele como música de qualidade – estava na boca do povo: “Agora, que faço eu da vida sem você, você não me ensinou a te esquecer, você só me ensinou a te querer...”
Ele acha a música horrorosa, embora a letra tenha um forte conteúdo romântico e no arranjo haja trechos com acompanhamento de um naipe de violinos com um solo de violão acústico à moda de Paco de Lucia - tudo no estilo de grandes boleros latinos. A canção gravada por Fernando Mendes, um cantor que “canta pra dentro” (como João Gilberto) entrou no rol das canções bregas desprezadas pela elite intelectual.
Vinte e cinco anos depois da gravação de Fernando Mendes, em 2004 Caetano Veloso, ao participar do show de lançamento do Criança Esperança da Rede Globo, canta uma música que faria parte da trilha sonora do filme Lisbela e o Prisioneiro. A letra da música retrata o desespero de alguém que é abandonado pela pessoa amada. Vamos continuar no campo das suposições: digamos que o nosso personagem fictício que tem bom gosto musical assistiu àquele programa e ficou encantado com a canção “estranhamente bela” interpretada pelo artista baiano. No dia seguinte, com o refrão da música sem sair da sua cabeça ele percorre as lojas de discos à procura do CD de Caetano que tem aquela música (em 2004 ainda existiam CD’s e lojas de discos). Nosso personagem não se lembra, ou finge não se lembrar que aquela canção é a mesma que ele ouviu numa rádio AM muitos anos antes, interpretada por Fernando Mendes.
Se tivéssemos que definir as duas situações, que termos usaríamos? A versão de uma música francesa é considerada cafona só porque foi cantada em português e uma música brasileira também considerada cafona vira clássico da música romântica depois de gravada por Caetano Veloso.
Eu defino isso como hipocrisia cultural.
Instagram: @fernandoluizcantor
*Fernando Luiz: Cantor, compositor, escritor e produtor cultural. Formado em Gestão Pública, apresenta o programa Talento Potiguar, aos sábados, às 8h30 na TV Ponta Negra, afiliada do SBT no RN.
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