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sábado, 13 de abril de 2019

Os noventa anos marcados na vida de uma menina-moça

Por João Bosco de Araújo
Uma jovem de apenas quinze, dezesseis anos. A menina-moça que saiu de seu doce lar para uma vida de trabalho em uma localidade desconhecida e rural, fora da cidade. Trabalho que dignifica as pessoas por sua importância na vida: alfabetização de crianças. Foi assim que Alzira Tavares de Araújo deu seus primeiros passos, enfrentando a vida como professora para ensinar no sítio Umbuzeiro, distante quase trinta quilômetros da casa de seus pais Severino e Luzia Tavares de Araújo, em Caicó.

Quanta energia e vontade de vencer dessa professorinha pesando menos de 40 quilos, conforme ela mesma relembra, quando chegou para as primeiras aulas e que alguns até duvidaram de sua capacidade, comprovada em pouco tempo, se orgulha de dizer. Ela foi contratada por Francisco Pereira, “Chico Francês”, para ensinar na casa dele.

Aliás, tempo foi o que nunca faltou para provar a tenacidade dessa mulher para sua época, herdada da mãe Luzia, outra mulher de firmeza e coragem para o trabalho, ao lado do companheiro, ajudava o marido Severino na fabricação de chapéu de couro, pioneiros na cidade de Caicó, embora vindos da Paraíba, de São Mamede, terra natal também dos irmãos Antônio e Francisco Tavares, menos Antenor que veio na barriga da mãe e nasceu potiguar nos últimos meses de 1932.

Amparados pelo desempenho caprichoso dos pais, educando os filhos nos melhores colégios da nova cidade, a filha Alzira fez seus estudos no Grupo Escolar Senador Guerra e no Educandário Santa Teresinha, saindo preparada para o ofício que a esperava.

Determinação, perseverança, altivez, nunca lhe faltaram. Tanto que aos 18 anos estava casada com Pedro Salviano de Araújo, 22 anos mais velho do que a professorinha do lugar, onde o conheceu em suas visitas temporárias à terrinha, vez que comercializava burro-mulo para usinas de cana-de-açúcar, em Pernambuco, negócios do primo Manoel Antônio do Umbuzeiro.

Casada, dona de casa, decidiu continuar ensinando e foi aconselhada a oficializar a escola na Prefeitura, sendo a primeira professora e primeira escola isolada municipal da região, localizada no Umbuzeiro, em Caicó. Com os filhos que nasciam, aumentando a prole, resolveu se afastar e entregar a escola que ainda resiste nestes mais de 70 anos. No entanto,  na década de 1970, quase trinta anos depois, voltou a ensinar, dessa vez na alfabetização de adultos do Mobral, experiência que ela afirma ter lhe dado muito prazer.

E mais trabalho na queijeira ao lado do marido, época de escassez na vida do campo com os sete filhos estudando na cidade. Graças aos esforços e incentivos dos dois, todos os filhos concluíram seus estudos, alguns alcançando a universidade, fato marcante para uma época em que apenas 1% da população do país conseguia se formar em uma faculdade.

São exemplos que têm marcados os sete filhos e são espelhos para os 14 netos e 13 bisnetos, 1 bem pertinho de chegar.

Exemplo de vida simples, porém, comprometido com a verdade, honestidade, respeito, caridade, e tudo resulta no que foi vivenciado nos 33 anos na companhia do marido Pedro Salviano, desde a escolinha isolada. Zelo com a família e com os que estavam por perto.

De todas as suas preocupações, a hora da refeição talvez seja a maior de todas. Quem sabe não seja um trauma da infância, a mãe ocupada no trabalho da oficina de chapéus, regrava na alimentação, educando e valorizando a ordem, a disciplina.  

Preocupação que não se restringe à família, mas a todos ao seu redor, desde a época da convivência rural. É tanto que seu cardápio continua ainda na Fazenda, que o diga os carões dos médicos que lhe acompanham na atualidade.

Atualidade que já se vão quase 38 anos de viuvez, embora na companhia dos filhos, netos e agora bisnetos, sobrinhos, os irmãos Antenor e Chico, das pessoas queridas e amigos.

Aliás, amigas. Porque foram Comadre Amália e Severina Melada suas verdadeiras amigas, desde a menina-moça desconhecida e “da rua” que se apoderava na terra estrangeira, com especial carinho para Comadre Amália, praticamente da mesma idade e confidentes por longas e longas datas.

Tristeza por ter perdido as amigas, já juntas do Pai Eterno. Aflição, também, pela enfermidade da filha Sônia, que se contenta visitá-la todas as tardes de domingo. Quer chova ou faça sol!

Outra pessoa especial na vida de Alzira Tavares é Maria Helena. Sempre a recebeu com carinho em Brasília, em suas viagens à capital federal na casa do irmão Chico Tavares. Nos últimos anos, também enferma, mora em Porto Alegre na espera de um transplante de pulmão. 

Maria Helena está longe, mas enviou sua mensagem. “Que maravilha, por tudo que representa. Pela longevidade da matriarca, exemplo de mulher, uma fortaleza sob todos os aspectos, como também pela comemoração do filho caçula. Meus parabéns e um abraço bem apertado em ambos. Estarei presente na mente e no coração”, escreveu no whats app.

Sim, ela lembrou também do aniversário do filho caçula. Flávio Salviano de Araújo nasceu na data em que a mãe completara 35 anos, no dia 13 de abril de 1964.

Hoje são 90 anos. Mamãe, quanta energia e vontade de viver! E repito o que já disse nos 80: “Completar agora nove bem vividas décadas é mais uma bênção para essa fantástica e corajosa mulher, minha mãe e de meus irmãos: Socorro, Salete, Sônia, Sueli, Gilberto e Flávio.

Parabéns, sua decisão prematura, ainda menina-moça, lhe deu oportunidade de crescer e ser útil para o engrandecimento de todos que viveram e vivem ao seu redor. Que o Divino Pai Eterno, com a intercessão de Sant’Ana, lhe cubra de bênçãos. Amém!”

Atualizado com as fotos da celebração de Ação de Graças pelo Padre Albertino e em seguida confraternização na churrascaria do restaurante Tábua de Carne, em Capim Macio. Link de acesso

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