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domingo, 7 de junho de 2015

O cineminha de rua e a fibra de uma mulher de luta

Por João Bosco de Araújo*
Jornalista boscoaraujo@assessorn.com  

Foto: pesquisa Google/divulgação
Confesso que não me imaginava no meio da rua, numa brincadeira de crianças. Tampouco poderia imaginar no meio de pessoas cujo tempo não passou. Passaram as imagens de um tempo distante na infância. Iam chegando “Galego” (Jaciel), Joacir, Mirian, Jalmir, depois Ermínia, Marieta, ainda faltavam Fátima, Jurandir, Mércia, “Seu Zé” (Jasiel). Do outro lado havia mais gente.

Corri na direção do lado esquerdo à minha casa, na Augusto Monteiro. Já era noite, o dever de casa da aula do dia estava pronto no caderno. Outros meninos se reuniam para mais uma brincadeira. Barra-bandeira, garrafão, manzuá, jogo de bola, rabuge. Ninguém decidia, até que surge a idéia de inventar um cineminha. A invenção dos irmãos Lumière iluminava os meninos daquela rua de uma cidade distante de Paris. O projeto se concretiza, após copiar de uma revista antiga como se fazer um projetor de imagens apenas com uma caixa de sapatos, uma lente e uma lâmpada elétrica.

Simples, mas o quê passar naquela máquina e refletir na parede à cal? O lixo do Cine São Francisco, a solução! Pontas de fitas de filmes. ‘No Tempo das Diligencias’, ‘O Dólar Furado’, ‘Django’, ‘Dio como ti amo’, a maioria Fare West. Fora dali, a cidade vivia outro rolo de bang-bang. Concluía-se o imaginário, criando situações vividas no cotidiano familiar, com tiras pintadas a lápis de tinta em pedaços de material plástico, ou seja, o que seria o noticiário cinematográfico. 

Espetacular! Só faltava o escurinho do cinema. Providenciam-se os bilhetes de ingressos, valendo uma lata vazia de doce ou uma garrafa de casco inteiro. Fila de entrada. Vieram “Cabecinha de Dom” (Willame), Roberto de Anita, Geraldo “Besteira”, Manoel “Batata”, ainda chegou da outra rua a patota de Irazu, pouco depois Jorge (“Pé de Pato”) – neto de Seu Horácio do hotel; quem mais, Eugênio de Tio Toinho, uma turma do outro lado da rua, me parece que Netão e “Caçote”, irmãos dos soldados “106” e “107”, e mais outros que também apareceram. Justino Dantas, Rocha de Seu Martiniano, Miranildo, e a fila no beco ia dobrando o canto do muro.

Como não era um clube do Bolinha, várias meninas engrossaram a fileira, adentrando-se ao recinto fechado, aos fundos da casa, local de onde se realizaram, posteriormente, outras brincadeiras. Antes, porém, de abrirem-se as cortinas acontece o inusitado. Na portaria, meu irmão Gilberto não deixara entrar Pedro nem Paulo Afonso, que não compraram os ingressos. Desolados, os dois irmãos saem apressadamente. Ligeiro foi o retorno de Paulo, com ingresso em punho. Só que ninguém esperava uma revanche. Poucos minutos após o início da magia daquela sessão, o cineminha esvaziava-se, totalmente, com insuportável odor, pior do que cheiro de enxofre, resultado de quem ingeriu batata misturada a ovos.

Sadia foi a idéia daquele cineminha de rua, explorando a criatividade para outras atividades fora da escola, surgindo daí o circo com encenações teatrais, a bandinha de lata e cornetas de ‘mangueira’ e uma convivência formada na união e no sentimento de companheirismo.

À velocidade do tempo, volto e percebo que Fátima, Jurandir e Mércia não estavam na fila, agora daquele banco de igreja. Estiveram anteriormente. Nem “Seu Zé”. Mas “Zebu”, como também era chamado Jasiel, partira antes para a morada do Deus Pai, assim como Dona Maria Cunha, a mãe de todos esses filhos, cuja família e amigos participavam, naquele momento, da missa de trigésimo dia de seu falecimento, celebrada dia 4 de julho por outro caicoense, Monsenhor Lucas Batista, na Igreja de Santo Afonso de Ligório (Mirassol), em Natal.

Maria Cunha do Nascimento que nasceu para a eternidade aos 85 anos, deixa uma lição de vida para todos, ao seu redor; exemplo de resistência, perseverança e abnegação. Sua experiência de vida fica anotada na fita de nosso cineminha de criança surgido em sua casa em uma rua caicoense. Quem a conheceu, sabe muito bem da sua fibra, de uma mulher de luta!

*Texto publicado em julho de 2008, no Diário de Natal, um mês após o falecimento de Maria Cunha, carinhosa vizinha da rua de nossa infância!


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